As noites de luzes estranhas nos céus de Porto Alegre

*artigo atualizado em 15/11/2022 às 12:06hs

Pilotos de dois aviões que faziam rotas para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, relataram o aparecimento de luzes desconhecidas nos arredores da capital gaúcha, na noite de sábado (5). Conversas entre eles e a controladora de tráfego aéreo foram gravadas e viralizaram nas redes sociais nos últimos dias. Estas luzes misteriosas podem ser chamadas de óvnis (sigla para “objetos voadores não identificados”), pois não há confirmação do que se tratem.

O time de colaboradores do Projeto Exoss vem se debruçando sobre o assunto buscando possíveis explicações. Ao nosso entendimento o caso indica que um conjunto de fatores vêm ocorrendo nas noites, podendo ser uma mistura de vários eventos naturais e do homem.

Primeiro devemos separar o que sejam somente relatos visuais, os registros de câmeras e de celulares.

No que se refere ao registro das câmeras do site, elas mostraram diversas luzes pontuais, e por vezes com um leve rastro que nos leva a crer que ali podem também ocorrer a passagem de algum tipo de drone e possivelmente drones soltando fogos de artifício, além de outros efeitos artificias. Os registros de celulares a bordo do avião também mostram luzes paradas, aparentemente, o que pode ser devido a efeitos de movimentos relativos e paralaxe, já que na altura de voo de cruzeiro, perde-se muitas referências terrestres que ajudariam a identificar esse efeitos.

Os eventos chamam a atenção com os relatos de pilotos das aeronaves, experientes e com árduo treinamento, tendo os seguintes pontos a considerar:

  • Porque somente nessas semanas, tais fenômenos naturais vieram a público?
  • Esse tipo de fenômeno já ocorria no passado?
  • Ele continuará a ocorrer?
  • Sabemos que comandantes de aeronaves e seus co-pilotos dificilmente seriam ludibriados por meros satélites artificiais, a não ser que estejamos diante de um novo efeito de luminosidade por conta de redes de satélites como Starlinks, mas daí advém a pergunta, porque só agora isso se tornou tão evidente?

Os registros de câmeras de alta definição como do Gabriel Zaparoli, algumas dessas imagens mostram características bem altas de rastro de meteoros ou algum satélite, esta hipótese seja analisada mais à frente.

Vale salientar que em matéria publicada no site Aeroin, os militares da FAB iniciaram treinamentos aéreos na região do Sul do Brasil, nas redondezas desses avistamentos. O que chama atenção, porém, é que nenhuma dessas luzes foram registradas em radar de terra da Torre de POA, ou ao menos não vimos nenhuma menção a registros de sinais de radar, o que fortalece a hipótese de fenômeno natural, ou alvos que estejam longe do alcance dos radares.

Outro fato notório são os vários relatos desses pilotos, explicando que seus aviões foram seguidos pelas luzes, “luzes sobrevoando abaixo da aeronave”.

Os satélites Starlinks

O Starlink é um projeto de desenvolvimento de constelações de satélites em andamento pela empresa americana SpaceX, e já tem mais de 2.000 satélites em operação.

Em primeiro lugar devemos saber que três requisitos principais para que um satélite seja visível:

  1. O satélite deve estar acima do limite do horizonte do observador.
  2. O sol deve estar suficientemente abaixo do horizonte para que o céu esteja escuro, pelo menos -6 graus abaixo. do horizonte, conhecido como anoitecer náutico.
  3. o satélite deve ser iluminado pelo Sol, ou seja, o Sol deve estar até o limite mínimo de -18 graus abaixo do horizonte, ou seja, em algumas horas antes do amanhecer ou logo após o anoitecer. e o objeto não pode ser eclipsado pela Terra.

Com essa noção em mente, mas agora fazer uma radiografia das posições astronômicas, no dia 09 de novembro, pois neste dia tivemos muitos avistamentos e vídeos dessas luzes.

A posição Terra –  Sol encontra-se  logo após o que  chamamos de Equinócio de Primavera, que foi no dia 23/09 deste ano, quando as noites vão encurtando e os dias de luz aumentando até chegar em seu máximo no dia Solstício de Verão que se dará em 21/12. Ou seja, o hemisfério Sul vai ficando cada vez mais voltado em direção aos raios do Sol, e isso tem um efeito revelador que mais a frente será discutido. Veja os diagramas a seguir.

O diagrama 1, mostra Terra – Sol , onde objetos estão fora de escala por motivos didáticos.

No diagrama 2 modificado, mostra o sistema terra – umbra e penumbra, tanto para o inverno quanto para o verão, onde objetos estão fora de escala por motivos didáticos.

Temos também de colocar aqui a questão das fases da Lua , pois nos dias que se seguiram as luzes, a Lua estava indo da fase crescente a cheia o que atrapalha vigorosamente a observação de satélites: 

  • ‘2022-10-25 Lua Nova
  • ‘2022-11-01 Primeiro Quarto
  • ‘2022-11-08 Lua Cheia.
Diagrama 3

Como se pode aduzir no diagrama 2, a medida que o a penumbra e a umbra se deslocam em relação a posição do Sol, podemos ver que um satélite localizado em latitudes bem altas podem atravessar a região da penumbra de forma bem rápida. O que pode embasar a teoria de alguns flares de Starlink na região observada. Você também pode considerar o diagrama interativo de Mick West ,que demonstra de forma simplificada a questão da reflexão de satélites neste link.

Mas seriam todas as luzes Starlink? Achamos que não, mas que houve uma mistura de vários efeitos naturais e artificiais. Lembremos de áudios de pilotos contando sobre luzes giratórias, seguindo avião etc. Nessa primeira fase da crescente até a cheia, a Lua fica no céu ao entardecer até a madrugada do dia seguinte nos dias de Cheia. Na semana dos registros das luzes, o sol estava bem abaixo do horizonte, em torno de -40 graus de altura, ou seja, bem fora dos limites da boa visibilidade de satélites.

Fizemos uma análise inicial, com base no dia 9 e 10 de novembro, utilizando a base de dados do NORAD, com o total de quase 3300 satélites do Starlink, realizando cálculos de trajetória e visibilidade entre os horários de 23 :00 hs da noite até 1h da madrugada do dia seguinte.

O primeiro passo foi avaliar para a região do aeroporto de POA quais satélites daquela rede estariam minimamente acima do horizonte, ou seja acima da elevação de zero graus, o valor foi surpreendente: cerca de 2690 satélites, passando nos céus de Porto Alegre. 

Mas por questões de visibilidade prosseguimos os cálculos para descobrir quantos seriam visíveis acima de 20 graus do horizonte, ou seja, onde já temos boa visibilidade de objetos astronômicos, o número foi grande de novo, com cerca de 2 240 satélites caminhando nos céus de POA acima de 20 graus, ou seja cerca de 450 satélites estavam transitando entre a linha do horizonte até 20 graus.

Calculamos também o número de satélites em altura de visibilidade ideal de objetos espaciais, encontramos o valor de 714 satélites, acima de 60 graus até o zênite, orbitando acima de POA, ou seja na faixa entre 20 graus do horizonte até 60 graus teríamos cerca de 1530 satélites caminhando nos céus. 

É bom salientar que muitos desses satélites , podem ser contados de forma repetida pois eles têm um período orbital de cerca de 80 a 90 minutos, sendo que poderiam dar duas voltas completas em torno da Terra, dentro da faixa de 23:00 hs até 1:00 hs da madrugada do dia seguinte.

Então isso corrobora as simulações feitas por Stellarium da quantidade de satélites, mas isso não quer dizer que todos eles sejam visíveis, impedidos na questão de estarem fora da luz solar, devido ao horário. Mas lembramos que muitos deles possuem órbitas de cerca de 500 a 550 km de altura acima do nível do mar. Neste ponto, podemos pensar sobre o diagrama 2, que mostra como a faixa de penumbra e umbra, mudam conforme a estação do ano e de fato, para latitudes elevadas indo bem ao Sul do Equador, a faixa de penumbra vai se estreitando em zonas de limites, quanto mais o planeta se encaminha para o verão. Nas zonas das latitudes indo por polo a penumbra fica cada vez menor , e mais rapidamente o satélite a atravessa.

É bom salientar que são satélites pequenos e numa órbita a 500 km de distância do chão, mesmo com reflexos rápidos do Sol, nos extremos da penumbra, seriam mais facilmente visíveis, mas lembramos que a Lua estava no Céu, e que a luzes da cidade e Porto Alegre e redondezas, atrapalham bastante a visualização de objetos mais fracos, como estrelas de magnitude 2 – 3 e acima disso para esses satélites apresentem reflexos rápidos, por estarem numa zona limite da penumbra, devem refletir magnitudes abaixo de 1, pelo menos.

Após desenvolvermos um programa exclusivo para analisar a passagem de Starlinks durante o evento, utilizamos o video de Mick West e colaboradores que há algum tempo já vem analisando outros casos de Starlinks sendo confundidos com OVNIs baseado na ideia de Reddit user: “danse-macabre-haunt”. O referido video onde mostra vários pontos brilhantes nas imagens apontando para direção, conforme figuras 4 e 5, e por volta de 1:00 hs da madrugada do dia 10/11/2022, utilizamos para essa analise o banco de dados, já mencionado no post.

Figura 4 do site em 07/11/2022, de flarkey
Figura 5 do site em 07/11/2022, de flarkey.

Fizemos um, teste com 6 starlinks que são apontados no video e relacionado  as luzes , e conforme os calculo abaixo, confrontado com o video, e com Stellarium, conferem entre si, com a discrepância de alguns segundos, que pode ser devido a atualização do tempo da câmera, e obviamente alguns desvios de velocidade orbital por conta de pertubações menores nos satélites e efeitos da velocidade da luz.

Starlinks:

  • 4053    data: 10/11/2022  ~ 1:00 hs
  • 4516:   data: 10/11/2022  ~ 1:00 hs
  • 3959 : data: 10/11/2022  ~ 1:02 hs
  • 2275:   data: 10/11/2022  ~ 1:02 hs
  • 4303:   data: 10/11/2022  ~ 1:06 hs
  • 4474 : data: 10/11/2022  ~ 1:12 hs

Nosso cálculos* mostram o seguinte:

Os horários estão em UTC , ou seja você deve diminuir 3 horas das horas registradas abaixo (UTC-3) :

STARLINK-4053 : altura aprox. : 550 km  e distancia media a Porto Alegre: 2248 km

  • 2022 Nov 10 04:00:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:01:00 está em sombra

STARLINK- 4516 altura  aprox.: 545 km  e distancia media a Porto Alegre: 2271 km

  • 2022 Nov 10 04:00:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:01:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:02:00 está em sombra

STARLINK-3959:  altura aprox.: 546 km  e distancia media a Porto Alegre: 2099 km

  • 2022 Nov 10 04:00:00 está em sombra
  • 2022 Nov 10 04:01:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:02:00 está em iluminação solar

STARLINK-4303: altura aprox.: 545 km  e distancia media a Porto Alegre: 2186 km

  • 2022 Nov 10 04:04:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:05:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:06:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:07:00 está em sombra

STARLINK-4474:  altura aprox.: 545 km  e distancia media a Porto Alegre: 2107 km

  • 2022 Nov 10 04:11:00 está em iluminação solar
  • 2022 Nov 10 04:12:00 está em sombra

STARLINK-2275:  altura aprox.: 552 km  e distancia media a Porto Alegre: 2262 km

  • 2022 Nov 10 04:00:00 está em sombra
  • 2022 Nov 10 04:01:00 está em sombra
  • 2022 Nov 10 04:02:00 está em iluminação solar

*Cálculos considerando raio da Terra = 6378.1366 km e efeitos da velocidade da luz.

Considere que a bordo de aeronaves em altas altitudes o céu é bem mais escuro e mais fácil de serem identificado em magnitudes mais baixas como 4/5, mas seriam pontinhos bem fracos. Ainda resta a questão de luzes seguindo aeronaves comerciais, efeito de movimentos relativos ou ilusões de paralaxe? Acreditamos que pilotos experientes dificilmente seriam iludidos por esse efeito tão bem conhecido.

Em comunicado oficial, a SpaceX explica que seus satélites ja “estacionados” se posicionam no modo “shark-fin”, ou seja, minimizando qualquer impacto de reflexo de luz solar, sendo que quando tais satélites estão ainda em modo de posicionamento a caminho ainda da posição final eles ficam em posição open book”  na figura 2.

Existe a possibilidade desses flares estarem ocorrendo por conta de alguns Starlinks em altas latitudes, que estão em modo open book, causando espalhamento da luz solar, comportamento que não é o prometido pela SpaceX, quando se comprometeu a evitar esse tipo de posicionamento ou do próprio chassi que esta sempre virado para baixo, pois todos os satélites calculados por nós estão já em órbita estacionada. Ainda assim isso não explica a totalidade de casos ali ocorridos, que são um conjunto de efeitos naturais e do homem: meteoros, drones, treinamento militar na região e o novo efeito de flares de Starlinks.

Nesse caminho, caso sejam de fatos flares de Starlink, deveremos ver esses fenômenos se repetirem até o final do ano, e paulatinamente diminuírem até a chegada do inverno. 

Este artigo poderá ser atualizado com novas informações posteriormente.

Edição: Marcelo De Cicco

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