Superbólido no mar de Bering

No dia 18 de Dezembro de 2018 às 23:48h horário universal (TU) uma enorme bola de fogo entrou na atmosfera sobre o mar de Bering, entre a Rússia e o Alasca. Mas, somente agora em março, pesquisadores da Nasa divulgaram os primeiros resultados deste fato de grandes proporções, durante quinquagésimo Lunar and Planetary  Science Conference realizado no Texas. Informações sobre a trajetória do corpo estão disponíveis e podem ser acessados na página de FIREBALLS do projeto CNEOS (Center for Near Earth Object Studies).https://cneos.jpl.nasa.gov/fireballs/

Superbólido e sua classificação de energia de acordo com o projeto CNEOS/JPL/NASA

Tal evento foi o maior já registrado desde o ocorrido em Chelyabinsk, na Rússia, em fevereiro de 2013 que na época causou danos patrimoniais e feriu mais de mil pessoas com estilhaços de vidros quebrados, provocados pela onda de choque da explosão. Felizmente,  este novo caso, de dezembro de 2018, não provocou danos nem feridos, sequer foi testemunhado (até onde se sabe) por alguma pessoa.

Mas, satélites militares dos EUA detectaram a explosão e imagens do satélite japonês  Himawari confirmaram tal ocorrência. Um evento extraordinário como este é conhecido como  superbólido, um meteoro mais brilhante do que a magnitude visual absoluta -17 (como referência a lua cheia em uma plena noite possui a magnitude (brilho) estimado em -12), gerando o chamado estampido sônico – “sonic boom” e cortando os céus a uma enorme velocidade, podendo, ao final de sua trajetória luminosa, espalhar meteoritos ao chão.

Imagem do satélite Himawari no momento da entrada do superbólido

Este superbólido começou a queimar a uma altitude acima de 100 km, em um ângulo de entrada bem raso, de cerca de 7 graus e a uma velocidade relativa ao nosso planeta de cerca de 32 km/seg ou 115.200km/h!

Sua massa foi estimada em 1.500 toneladas e diâmetro em torno de 10 metros. Comparativamente, o famoso Chelyabinsk tinha  entre 17 a 19 metros e 10 mil toneladas.

Ao penetrar mais profundamente em nossa atmosfera, ele foi  se desintegrando por conta da ablação com o ar e dado que a altura de explosão ou fragmentação máxima pode ter ocorrido a 26 km de altitude, mostrando uma alta resistência a pressão mecânica, podendo ser um pequeno pedaço de uma massa maior,  cujos restos podem ter caído no mar de Bering, conforme o mapa a seguir aponta.

Região do mar de Bering onde o superbólido foi detectado

Este evento em particular foi cerca de dez vezes maior que a bomba atômica de Hiroshima, pois sua energia explosiva foi calculada em torno de 173 Kt (kilotons), ou seja, o mesmo que explodir um artefato nuclear a  26 km de altura, mas, por sorte, acima do mar e longe de regiões habitadas.

Imagem ampliada com o rastro laranja em evidência

A foto tirada pelo satélite e ampliada acima, mostra em detalhes a poeira de detritos deixada pela passagem do superbólido em nossa atmosfera, numa trajetória de dezenas de quilômetros de extensão.

E, se essa explosão acontecesse numa área densamente habitada, como no caso da região metropolitana de São Paulo, em cima da cidade, a cerca de 26 km de altura? Felizmente, não haveria nenhum dano  material ou humano, conforme simulação feita no site https://nuclearsecrecy.com/nukemap/#, mas a população local tomaria um grande susto, ouvindo e vendo uma enorme explosão,  num raio de dezenas e centenas de quilômetros de distância.

Porém, efeitos danosos começariam a se tornar mais preocupantes se o choque explosivo acontecesse abaixo de 5 km de altura, colocando  milhares de pessoas em risco, por exemplo, de se machucarem com estilhaços de vidros, por conta do deslocamento de ar e barulho ensurdecedor da explosão quebrando janelas, portas e vidraças, sem falar dos prejuízos patrimoniais. Haveria também centenas de pessoas com queimaduras de primeiro grau e a possível ocorrência de lesões nos olhos por conta do brilho intenso da explosão. Como exemplo, no mapa abaixo, mostramos a região de danos pelos efeitos descritos neste parágrafo, se fosse em cima da cidade de São Paulo.

Região de São Paulo com a área de impacto da explosão aérea, com 7,5km de raio de extensão – Simulação Exoss
Área de dano com 7,5km de raio  extensão vista a partir da Praça da Sé se fosse o ponto logo abaixo da explosão a 5 km de altura.  – Simulação Exoss

 

A demonstração acima serve para alertar que tais eventos podem causar bastante estragos, como ocorreu em Chelyabinsk, quando o superbólido  descarregou a energia correspondente a 400 kT machucando mais de mil pessoas e causando prejuízos materiais da ordem de milhões de dólares.

A preocupação de muitos cientistas planetários, com a ocorrência de eventos desta magnitude incentivou ações voltadas a estratégias de prevenção e mitigação, mediante o estabelecimento de diversos programas de monitoramento de objetos espaciais que passam próximo a Terra, conhecidos como NEOS e a criação de vários fóruns internacionais para discutir e propor ideias.

Agências espaciais como a ESA  e a NASA envidam esforços e gastam milhões de dólares anuais em programas para levantar e monitorar objetos que possam causar injúrias e danos às populações de nosso planeta, são os chamados projetos de defesa planetária. Estima-se que haja 100 milhões de objetos menores que 10 metros de diâmetro orbitando próximos a Terra, como o que causou a explosão do dia  18 de dezembro de 2018.

Diariamente a terra é bombardeada por detritos espaciais e a própria NASA através do projeto CNEOS cataloga há cerca de 30 anos esses superbólidos registrados por detectores em terra e satélites.

Impactos de fireballs no planeta terra desde 1988

Até mesmo o Brasil já foi palco de  eventos análogos, como em 2015, quando sobre o estado do Rio de Janeiro um superbólido explodiu assustando e acordando muita gente durante a madrugada, sendo registrado por estações de monitoramento de meteoros do projeto exoss.

 

Edição: Eduardo Santiago

Referências:
Physics.ox.ac.uk 
Himawari Satellite Data Base 
Cneos.jpl.nasa.gov

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