Análise da Cratera McGetchin
Em algum momento entre 11 de abril e 22 de maio de 2024, um fragmento de cometa ou asteroide do tamanho de um prédio de 3 a 6 andares atingiu a borda leste da Lua. Sem atmosfera para frear ou queimar o objeto, o impacto escavou a maior cratera recém-formada já encontrada no Sistema Solar. Batizada de McGetchin, ela tem cerca de 222 metros de diâmetro e 43 metros de profundidade. Só soubemos disso meses depois, quando imagens do satélite Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da NASA, revelaram a cicatriz.
Para a EXOSS, o evento não é apenas uma curiosidade lunar. É um laboratório natural do mesmo tipo de corpo que a rede brasileira monitora todas as noites no céu do hemisfério Sul: meteoroides, bólidos e pequenos asteroides próximos da Terra.

O que aconteceu, em números
- Quando: entre 11 de abril e 22 de maio de 2024.
- Onde: 1,3536°N, 67,1765°E, no limbo leste da face visível da Lua, a sudeste da cratera Dubyago N.
- Cratera: 222 m de largura e 43 m de profundidade.
- Borda: sobe cerca de 8 m acima do terreno antigo.
- Impactador: rocha do porte de um edifício de 3 a 6 andares.
- Frequência estimada: cerca de uma vez por século, ou ~132 anos nos modelos de crateração.
- Descoberta: 24 de outubro de 2025, por Robert Wagner, ao comparar mapas “antes e depois”.
- Nome: McGetchin, em homenagem ao cientista lunar Tom McGetchin.
O LRO orbita a Lua há mais de 17 anos. Nesse período, a equipe identificou pelo menos 1.000 crateras novas e sinalizou cerca de 100 mil alterações de superfície. A maioria é pequena. McGetchin é outra categoria: um impacto raro, visível até em mapas de baixa resolução.
Por que a Lua “guarda” o que a Terra apaga
Na Terra, a atmosfera funciona como um escudo. Meteoroides de alguns metros geralmente se desintegram em bólidos; só os mais resistentes chegam ao solo como meteoritos. Na Lua, não há esse filtro. Qualquer fragmento que cruze a região Terra–Lua pode atingir o regolito em alta velocidade e deixar um registro permanente.
Por isso a superfície lunar é um arquivo de impactos. Cada cratera recente ajuda a calibrar modelos de frequência e tamanho dos corpos que circulam perto da Terra. McGetchin é especialmente valiosa porque a janela temporal é estreita: o choque ocorreu em poucas semanas de 2024.
O “ponto frio” ao redor da cratera
Depois da descoberta visual, o instrumento térmico Diviner observou a região. Resultado: uma área de cerca de 6,4 km de diâmetro ficou aproximadamente 8,8 °C mais fria à noite do que o entorno.
O impacto “fofou” o regolito. Com densidade menor, esse solo retém menos calor. A alteração térmica vai muito além da borda da cratera — detalhe importante para rovers, pousos e futuras bases.

Como a cratera foi encontrada?
O LRO constrói mapas globais com a Wide-Angle Camera. De tempos em tempos, a equipe empilha imagens antigas e novas com um software que destaca mudanças: o que permanece igual vira cinza; o que mudou aparece claro ou escuro.
O software gera muitos alarmes falsos. Wagner procura halos de ejeção. McGetchin saltou aos olhos: um padrão de detritos que ocupava centenas de pixels. “Foi, de longe, o padrão de impacto mais óbvio que já vi nesse tipo de imagem”, disse ele.
Em seguida vieram as imagens da Narrow-Angle Camera, com cerca de 1 metro por pixel. Elas revelaram forma, profundidade e o estado do terreno. A cratera se formou no contato entre basaltos de mar e a crosta anortosítica das terras altas. Há sinais de ejeção em pelo menos duas ondas e distúrbios detectados a mais de 100 km do centro.
A conexão com o trabalho da EXOSS
A EXOSS (Exploring the Southern Sky) é uma rede brasileira de ciência cidadã dedicada ao monitoramento científico de meteoros e bólidos. Câmeras em estações voluntárias registram entradas atmosféricas, e o pareamento permite calcular trajetória, velocidade, altitude e, em alguns casos, a região provável de queda.
Esse trabalho se conecta a McGetchin em quatro pontos:
- Mesma população de pequenos corpos. O objeto que formou a cratera lunar pertence à mesma família de meteoroides e NEAs que a EXOSS observa quando eles encontram a atmosfera. A Lua mostra o que chega sem filtro; a EXOSS mostra o que a atmosfera terrestre destrói ou fragmenta.
- Calibração de fluxos. Redes de câmeras medem frequência e energia de bólidos. Crateras lunares recentes medem o fluxo que atinge uma superfície sem ar. Juntos, os dois conjuntos refinam estatísticas de risco.
- Parceria com o IMPACTON / Observatório Nacional. A EXOSS colabora com o mapeamento de asteroides próximos da Terra. Impactos lunares contemporâneos são um teste independente desses modelos e o nossos associados como o ROCG, estão continuamente monitorando.
- Ciência cidadã e vigilância contínua. Wagner encontrou McGetchin numa checagem rotineira. Na EXOSS, o equivalente é o olhar das estações, do live, dos relatos de bólidos e da análise das capturas.
Se aquele impacto tivesse ocorrido no lado visível no momento certo, o flash poderia ter sido visível da Terra. Relatos de flashes lunares e de bólidos terrestres entram no mesmo espírito: documentar o que o céu mostra por alguns segundos.
Programas como Artemis e missões comerciais tratam a Lua como destino de longa permanência. McGetchin lembra que o ambiente não é estático. Além do buraco, há ejeção a alta velocidade e alteração do solo numa área de quilômetros. A equipe LROC alerta que ativos de longa duração na Lua precisam ser projetados para aguentar impactos de partículas rápidas vindas de eventos distantes.
Na Terra, o mesmo alerta se traduz em monitorar o céu. A atmosfera nos protege, mas também esconde. Redes como a EXOSS, o reporte de bolas de fogo e os observatórios de NEAs formam a contraparte terrestre do LRO.
O que o público e os associados podem fazer:
- Acompanhar as capturas em nosso site.
- Reportar bólidos pelo canal da rede (bolido.exoss.org).
- Manter estações alinhadas e com dados de qualidade: um evento pareado vale mais do que dezenas de vídeos isolados.
- Usar McGetchin em escolas e clubes: impacto, regolito, ausência de atmosfera e a diferença entre meteoro, meteoroide e crateração.
RESUMO
McGetchin é a maior cratera nova já documentada no Sistema Solar. Nasceu de um impacto raro em 2024, foi reconhecida em 2025 e detalhada em 2026 com imagens, topografia e temperatura. Para quem observa meteoros no Brasil, ela é o espelho lunar do trabalho noturno das câmeras: o espaço próximo à Terra continua ativo, e registrar esses corpos — na Lua com orbitadores, na Terra com ciência cidadã — é a mesma investigação vista de dois laboratórios.
Fontes: NASA / LRO (16 set. 2026); EarthSky (18 set. 2026); LROC Image of the Day — Spectacular McGetchin Crater; Wagner et al., Science Advances; nomenclatura USGS/IAU (McGetchin)
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