A história de duas crateras e seus habitantes

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O que estas duas crateras tem em comum?

Há 14.5 milhões de anos atrás, um asteroide com 1 quilômetro de diâmetro, acompanhado de seu pequeno satélite de 150 metros, caiu na Terra à velocidade de mais de 70 mil km/h na região onde hoje é a Alemanha, criando duas crateras de 25 e 4 km de diâmetros , respectivamente, e recebendo os nomes de Nördlinger Ries e Steinheim Basim. Esse evento proporcionou uma geografia característica e as condições necessárias que tornaram a região um famoso geoparque, conhecido como Geopark Ries.

Um geoparque é uma área protegida de grande importância geológica, que explora e preserva a história e o potencial natural do local. Nesse sentido, Ries faz muito bem o uso de sua cratera. A cidade medieval de Nördlingen foi erguida em total sincronia com a geografia proporcionada pelo impacto, e até hoje os habitantes da cratera (e de toda a cidade) desenvolveram a economia local a partir do geoturismo, além de explorarem a rica arqueologia baseada na história dos antigos habitantes do local, remontando o Paleolítico e passando pela era de Roma até os tempos modernos.

A cidade medieval de Nördlingen na Bacia do Ries, Alemanha, erguida dentro da cratera

Mas Nördlingen não é a única cratera habitada no mundo. Na região de Colônia, periferia do município de São Paulo, estudos recentes realizados pelo geólogo Victor Velázquez Fernandez, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), confirmaram que o local é, na verdade, uma grande cratera formada pelo impacto de um corpo celeste. “O impacto produziu um buraco de 3,6 quilômetros de diâmetro, com cerca de 300 metros de profundidade e uma borda soerguida de 120 metros”, disse Velázques em entrevista dada à agência FAPESP, que apoiou a pesquisa. A cratera se estende por uma área de 10,2 quilômetros quadrados e se tornou uma das 188 crateras de impacto catalogadas pela EID (Earth Impact Database), base de dados internacional mantida pelo  Planetary and Space Science Centre (PASSC), da University of New Brunswick, Canadá.

CRATERA COLÔNIA

A cratera de Colônia, como é chamada, só veio a ser conhecida após suas primeiras imagens aéreas, ao final da década de 60, que evidenciaram sua forma circular perfeita. “(…) devido ao intenso processo de intemperismo característico do território brasileiro, esse buraco foi inteiramente preenchido por sedimentos e coberto pela vegetação, resultando em uma área plana circundada por colinas”, disse Velásquez em entrevista à Agência FAPESP. Além disso, outros fatores como vulcanismo podem resultar em estruturas circulares. Somente em 2013 foram reunidas evidências que comprovaram a hipótese do impacto, devido à pesquisa conduzida por Velázquez que se prosseguiu até 2015.

Leia também: Série Astroblemas – Crateras de impacto brasileiras

Graças a sondagens realizadas na região para o fornecimento de água potável, Velázques pode fazer um acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e, com as perfurações realizadas (que chegavam a 300 metros de profundidade) conseguiu obter amostras de sedimentos colhidas metro a metro.

“Nas amostras coletadas, encontramos várias evidências. Uma delas, bastante forte, foi a evidência de transformação de vários minerais; em particular, quartzo e zircão. Para a transformação desses minerais, é necessária uma pressão superior a 40 quilobars [40 mil vezes a pressão atmosférica padrão] e uma temperatura da ordem de 5 mil graus Celsius. Esses patamares de pressão e temperatura são característicos da potente liberação de energia resultante do impacto na superfície terrestre de um objeto proveniente do espaço interplanetário”, informou o pesquisador à FAPESP. Ainda estão pendentes a determinação da natureza do objeto que provocou o impacto (sua constituição) e a data exata do evento, atualmente estimada entre 5 e 36 milhões de anos atrás.

Forma circular da cratera de impacto de Colônia. Fonte: Velázquez et al., 2014 a

Além de serem crateras, Nördlingen e Colônia têm outra ligação, e está relacionada à nacionalidade de seus habitantes: Colônia recebe esse nome pois sua primeira ocupação, ocorrida em torno do ano 1840 na borda norte da cratera, foi realizada por colonos alemães. Anos se passaram e, durante a Segunda Guerra Mundial, seu nome mudou de “Colônia Alemã” para “Colônia”. Hoje também na borda norte encontra-se o bairro de Vargem Grande, uma ocupação recente, grande e desordenada aos moldes das periferias das grandes metrópoles brasileiras. Esgotos a céu aberto, crescimento desenfreado e outras características arriscam a conservação do patrimônio geológico que a cratera de Colônia representa.

Velázquez estuda regularmente a região desde 2005. Segundo ele, ao longo destes 11 anos testemunhou uma lenta mas consistente tomada de consciência da população local quanto à importância de preservar a formação geológica. “Construímos uma boa interlocução com as associações de moradores, que estão atualmente empenhadas em iniciativas como o Movimento Cratera Limpa”, afirmou. Engajados na preservação da Cratera de Colônia, Velázquez e seus colaboradores trabalham com iniciativas como a criação de um site com visitação virtual do local, gibis educativos para as escolas da região e até meios de implantar a exploração do turismo ecológico na cratera.

A cratera de Colônia se tornou Monumento Geológico declarado pelo Conselho Estadual de Monumentos Geológicos do Estado de São Paulo (CoMGeo-SP) em 2009, quando parte da área já estava ocupada. Desafios de preservação do local existem e são muitos. O engajamento dos habitantes com os projetos destinados à área, recursos para pesquisa e vontade política são fatores importantes para tornar possível a ideia de um desenvolvimento sócio-econômico local aos moldes de um geoparque, assim como existe em Nördlingen. Nos resta torcer para que a pesquisa conduzida por Velázquez possa alimentar essa discussão cada vez mais, evidenciando a relevância científica, ecológica, histórica e cultural de Colônia, não só para os habitantes de sua cratera mas também para todo o país.


Brasil tem uma das duas crateras de impacto habitadas no mundo – Agencia FAPESP

Fontes: Agência Fapesp, Geopark Ries

Edição: Leonardo Sattler

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